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UM VESTIBULAR PARA ALUGAR

[08/10/2008] Acena poderia ser de um desenho animado infantil se não tivesse graça alguma para o fotógrafo Jorge Saldanha e sua mulher. Depois da visita para alugar um apartamento, em Botafogo, no horário estipulado pelo corretor, os diversos interessados saíram correndo pela rua para tentar chegar mais rapidamente à imobiliária e garantir que suas fichas fossem analisadas primeiro.

— Parecia mesmo um daqueles desenhos animados nos quais os personagens atropelam uns aos outros e acabam estatelados no chão. Ficamos horrorizados — relembra Saldanha. — Com o tempo, fui ganhando know-how para conseguir alugar um apartamento. Era preciso ter um curso ou uma cartilha que ensinasse a enfrentar esse mercado.

O desabafo do fotógrafo não é diferente de outros tantos que tentam alugar um imóvel. De acordo com imobiliárias, a procura por unidades para alugar está muito maior que a oferta — justificada pelo aumento da renda da população e do número de trabalhadores com carteira assinada — tornando o processo tão competitivo que muitos comparam a um vestibular.

Critérios pouco claros de avaliação das fichas dos candidatos, exigências de documentação do locatário e do fiador que extrapolam os limites do bom senso e dificuldade de se fazer um seguro-fiança — que, além de caro, é rígido na sua aprovação — estão entre os principais questionamentos.

Fiador tinha que mostrar declaração de IR

Situação semelhante à de Saldanha viveu a publicitária Lúcia da Silva, de 35 anos. Depois de quatro anos morando de aluguel num apartamento no Flamengo, o proprietário pediu o imóvel e deu 30 dias para ela sair. Em três semanas, ela visitou 23 apartamentos.

— Perdi o primeiro imóvel que me interessei para um funcionário de uma empresa pública conceituada, mesmo eu trabalhando numa particular igualmente reconhecida. Eu havia preenchido a ficha primeiro, mas isso não foi critério. O segundo, perdi por conta da burocracia dos papéis: exigiram que meu fiador apresentasse sua declaração de Imposto de Renda e ele não quis, pois achou um absurdo. Já no terceiro fui com a documentação prontinha e acabei pagando o seguro-fiança, que não é nada barato — desabafa a publicitária.

A designer Luciana Freitas, de 25 anos, reclama da falta de transparência do mercado. Ela visitou um imóvel para alugar na Tijuca e entregou toda a sua documentação, mas, dias depois, recebeu a informação de que outra pessoa havia sido aprovada. Na semana seguinte, no entanto, o apartamento voltou a ser anunciado, com aluguel mais caro:

— Entrei em contato com a imobiliária e cada funcionário dava uma versão diferente. Acredito que, devido à grande procura, decidiram aumentar o valor do aluguel — lembra.

Oferta de unidades caiu 45%; procura subiu 80%

Imobiliárias admitem rigor e selecionam quem supostamente oferece menos risco para locador

Tamanha exigência para os candidatos a inquilinos é reflexo de uma nova realidade do mercado: a procura por imóveis está muito maior do que a oferta, segundo Rogério Quintanilha, gerente geral da APSA, uma das maiores empresas de gestão condominial e negócios imobiliários do Rio.— Em 2008, houve uma queda de 45,8% na oferta de imóveis. Com o crescimento da Petrobras e a vinda de outras empresas e novos profissionais para a cidade, a procura cresceu em 80% — observa Quintanilha. — Se no início de 2000, um imóvel demorava quatro meses para ser alugado, agora os contratos são fechados até no mesmo dia. O vice-presidente de marketing do Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi-Rio), João Augusto Pessoa, aponta que o seguro-fiança é a melhor alternativa para quem vai alugar um imóvel.— Apesar de caro, o seguro-fiança, que pode representar até 11% do valor do imóvel, evita constrangimentos com o fiador — compara Pessoa. — Tendo em vista a inadimplência, os critérios de aprovação têm que ser maiores. Mas isso não pode virar um leilão por quem tem a melhor ficha. É totalmente antiético.Pedir dois imóveis como garantia não é ilegalO agente de viagem Carlos Bernardes, de 26 anos, levou três anos para alugar uma casa em Jacarepaguá e chegou a pagar R$70 para ter sua ficha cadastral analisada pela imobiliária — o que, segundo advogados da área, é ilegal.— Por ser solteiro e novo, tive meu pedido recusado várias vezes. No fim, meu pai alugou para mim. Legalmente, ele é o locatário — conta Bernardes.A supervisora da Precisão Administradora de Imóveis, Marcia Abramoff, admite a rigidez na análise do perfil do candidato:— É desagradável, mas temos que escolher o melhor.O advogado Hamilton Quirino explica que está dentro da legalidade as imobiliárias pedirem tanta documentação.— Existe uma preocupação do administrador para não fazer uma locação mal feita — explica Quirino. — Mas é importante destacar que, para fazer a análise cadastral, qualquer taxa tem que ser paga pelo locador. Por outro lado, o advogado Armando Miceli explica está dentro da lei pedir dois imóveis livres como garantia, mas adverte: é um abuso pedir o imposto de renda do fiador.— A imobiliária se vale da condição de necessidade do candidato. Uma coisa é a renda, outra é o patrimônio. O importante para o fiador é ter patrimônio — destaca Miceli.

O QUE SE DEVE SABER

DOCUMENTAÇÃO: Ao procurar um imóvel para alugar, é importante estar com a documentação pronta. Ter cópia da identidade, CPF, comprovante de renda (contracheque e/ou cópia do imposto de renda), comprovante de residência e registro do imóvel do fiador. O primeiro que apresentar a ficha leva vantagem.

ANÁLISE DE CADASTRO: Qualquer taxa de intermediação tem que ser paga pelo locador. Algumas imobiliárias cobram a taxa a título de análise da ficha cadastral, o que é ilegal.

FIADOR: Tem que ter imóveis na cidade e é legal pedir dois imóveis. Já exigir o imposto de renda do fiador é considerado um abuso da imobiliária.

SEGURO-FIANÇA: Embora seja indicado por muitos, há certo rigor na análise de risco de crédito. Os preços do seguro variam muito, mas em média representam até duas vezes o valor do aluguel, que é pago anualmente.

Fonte: SINDUSLETTER
Postado em 08/10/2008

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