[08/10/2008] O furacão da crise financeira global não vai ser tão devastador para o Bric – grupo formado pelas economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China. Analistas brasileiros e americanos apostam que os quatro vão continuar crescendo, na contramão da recessão mundial. Neste cenário, o Brasil lidera, ao lado da China, as previsões otimistas, lastreado por um conjunto de fatores estruturais, no qual o sistema bancário tem destaque. À Rússia coube a liderança no ranking de vulnerabilidade.
– A crise mostra que o sistema financeiro é vital e deveria ser balizado pelo acordo da Basiléia. Entre os Bric, o Brasil é o único que segue a cartilha – diz Ernesto Lozardo, professor de economia da FGV-SP e autor do livro Globalização: a certeza imprevisível das nações.
O Basiléia II é o acordo que regula em mais de 100 países a gestão do risco bancário. A regulação foca a prevenção de uma crise bancária internacional, através da fiscalização do lastro nas ações de risco. Justamente o elemento que poderia ter evitado a crise mundial, detonada pelos subprimes nos Estados Unidos.
– A principal âncora do nosso desenvolvimento é o sistema financeiro estável e sólido. Ele fará o Brasil se sair melhor na crise. Os bancos brasileiros estão capitalizados e são confiáveis. Esta credibilidade é dada pelo Banco Central que faz correções rápidas, fiscalizando a liquidez e o grau de risco dos bancos – diz Lozardo, que acrescenta que o país é o único com metas para a inflação e ações interbancárias.
Nem a China, com quem o Brasil divide a melhor posição diante da crise, dispõe de tal eficiência.
– O sistema bancário da China ainda é arcaico se comparado com o nosso – diz Rodrigo Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC).
Mas, se os chineses só têm cartões de crédito há três anos, exibem reservas estrangeiras incomparáveis. O Brasil dispõe de US$ 208 bilhões, a China de US$ 2 trilhões.
– A China é a base sólida que os Bric têm para reduzir o impacto da crise e continuar garantindo o crescimento mundial – diz Maciel.
Crescimento mundial
Em 2007, os quatro países representavam 30% da economia mundial e foram responsáveis por quase metade do crescimento global, segundo o FMI. Os Bric avançam assim no rumo da profecia de Jim O´Neill, economista-chefe do Goldman Sachs que criou o termo e previu que o grupo seria a maior economia do mundo até 2050. Em artigo recente, O´Neill disse que a demanda dos Bric pode compensar a desaceleração americana. Mesmo analistas como Paul Krugman, que consideram uma estupidez o agrupamento estabelecido por O´Neill, admitem que a maior parte do crescimento econômico mundial vem dos emergentes.
– Todos os Bric têm elementos que garantem a possibilidade de continuar crescendo, mas o Brasil fica numa posição muito razoável por motivos que vão das reservas altas ao sucesso da política monetária no combate à inflação. Evidente que haverá impacto para os brasileiros, mas não será tão grave. O importante não é a situação atual, mas o futuro, com o encolhimento dos mercados para exportação – diz Albert Fishlow, economista e brasilianista americano, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos e do Centro de Estudos do Brasil da Universidade Columbia.
CHINA PLANEJA SELEÇÃO PELA EFICIÊNCIA E SUSTENTABILIDADE
Enquanto o mundo discute os rumos e conseqüências da crise, a China debate nos últimos dias um novo viés para o crescimento: ele deve ser científico, sustentável, ou seja, embasado na eficiência. A era do crescimento a qualquer custo está ficando para trás, agora a China quer que fiquem no mercado apenas as corporações eficientes, que ainda lucrem frente às novas exigências trabalhistas e ambientais, que encarecem os custos diz Rodrigo Maciel, do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
Além da busca contínua pela eficiência, a China alcançou a pulverização dos compradores. Exporta 30% da produção para o mercado americano, mas 51,1% vão para os vizinhos do Sudeste asiático e o resto se distribui entre União Européia, América Latina e África. E goza de duas situações fundamentais para liderar os Bric: crescimento robusto do mercado doméstico e maciços investimentos em ativos fixos, como infra-estrutura e indústria. São as pernas do crescimento chinês e não as exportações, como costuma-se atribuir diz Maciel, que discorda da tese do descolamento.
A China sofreu impacto da desaceleração e a previsão é que diminua o ritmo de crescimento, para 9,5% em 2009, contra 10% projetados para 2008. Mesmo com redução, é um número espetacular. Um crescimento muito abaixo deste patamar seria perigoso até para a economia brasileira, diz o economista Albert Fishlow. Com a desaceleração da China e de outros gigantes como Índia e Coréia, o mercado de exportações vai ficar mais difícil avalia.
O economista Jim O´Neill também já demonstrou preocupação com a economia brasileira diante de uma queda do crescimento chinês para algo abaixo dos 7%. Com a tendência de queda dos preços das commodities, a equação se complica para o Brasil e melhora para a China, grande importador de insumos. Partidário da tese do descolamento, Marcos Fernandes, professor da Economia da FGV-SP, não tem dúvidas sobre o sucesso chinês. A China tem uma dinâmica interna de desenvolvimento que independe da crise e, por si só dá conta.
RÚSSIA SERÁ A QUE MAIS SENTIRÁ OS EFEITOS
A crise vai pegar a Rússia. "Não é que vai deixar de ser economia emergente, mas, dos Bric, será o que mais sentirá os efeitos do furacão", diz o professor Fishlow, de Columbia, que aponta a dependência em relação aos preços do petróleo principal produto do país como o ponto fraco russo. Mas as vulnerabilidades do país podem ser mais ampliadas. Onde está a indústria russa?
Ainda por acontecer questiona Ernesto Lozardo, professor da FGV-SP. Outra deficiência que compromete o bom desempenho face às exigências da crise é a corrupção no setor público. O desempenho da Rússia era animador entre os Bric, mas o sistema financeiro segue sem conseguir promover a transparência afirma Marco Antonio Silva, professor de Relações Internacionais da ESPM. A Rússia vive das exportações do petróleo e do gás, que vai especialmente para a Alemanha. O país aposta alto no petróleo e deve perder dinheiro agora, com a desaceleração da economia, o que deprime a demanda e com as commodities em queda diz Marcos Fernandes, professor de economia da FGV.
Mau desempenho
A julgar pela Bolsa russa, a con- juntura está mesmo difícil. Nos últimos dias, as operações na Russian Trading System (RTS), principal mercado acionário, foram suspensas e retomadas continuamente, pelas agudas oscilações dos papéis. O índice Micex, que tem peso maior nas commodities, também foi paralisado em várias oportunidades. O mercado só pareceu mais animado depois que o governo anunciou a injeção 13,8 milhões de euros na bolsa para tentar normalizar os negócios. Analistas concordam que é a pior crise financeira desde 1998. Além das questões financeiras, o país está fragilizado politicamente.
A cena política já era ruim com os conflitos no alto escalão do governo, envolvendo especialmente o primeiro-ministro, e pioraram com a invasão da Geórgia conta Frederico Turolla, professor de Economia da ESPM, que prevê forte desaceleração da economia russa, cuja média tem ficado em torno dos 7%.
ÍNDIA PRECISA ENFRENTAR DESAFIOS HISTÓRICOS
Os indianos ainda não de- finiram que estratégias vão adotar para se inserirem no mercado globalizado. Por enquanto, mantêm o modelo de crescimento voltado para a economia interna. O país lidera um grupo de economias emergentes da Ásia que vendem perto de 26% dos serviços de tecnologias da informação no mercado global. Se a meta for a consolidação da nação como exportadora deste ramos de serviços, a Índia precisa enfrentar desafios históricos. O principal é a falta de infra-estrutura. Neste sentido, é um caos, trata-se de uma nação que não depende tanto de investimentos internacionais, o que é positivo nesta altura da crise mundial, apenas porque ainda não formulou seu projeto de crescimento na infra-estrutura, em setores vitais como energia, comunicação, estradas e portos diz Marco Antonio Silva , professor de Relações Internacionais da ESPM. A Índia vai sofrer mais na crise que o Brasil e a China por dois motivos: déficit em conta corrente e déficit fiscal. Sobre o fiscal tenho avaliação positiva, porque são recursos dirigidos a investimentos em infra-estrutura, em obras. No longo prazo são ótimas iniciativas diz Frederico Turolla, da ESPM.
Dependência
Outros complicadores do crescimento indiano são a grande dependência em relação ao petróleo, matéria-prima quase inexistente no país. Os indianos também enfrentam o crescimento da inflação, e os desafios de melhorar os níveis de educação básica e superior e aumentar as taxas da produtividade agrícola. Por este conjunto de fatores, Ernesto Lozardo, da FGV-SP, acredita em um crescimento indiano levemente reduzido em 2009: Deve alcançar de 6% a 6,5%, contra 7% do período anterior. O crescimento de 6,5% também é projetado por Silva, da ESPM. O ritmo será pautado pelo mercado interno, já que as exportações não alcançam 15% do PIB do país diz o professor, que atribui à má posição do país entre os Brics a indefinição sobre seu papel na economia mundial e regional.
Fonte: SINDUSLETTER Postado em 08/10/2008
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