[10/07/2008] Que as profissões de engenheiro civil e operário de obras estão em alta por causa do boom do mercado imobiliário, todo mundo sabe.
O que muitos ainda não observaram é que outras atividades indiretas ao setor também chegam a registrar déficit de pessoal. Há uma forte demanda, por exemplo, por paisagistas, corretores, promotores de eventos e especialistas em marketing — gente que sequer aparece nos canteiros de obras, mas que faz o mercado girar.
Quando se alimenta a construção civil, uma série de outras indústrias e o sistema financeiro são aquecidos, inclusive indiretamente, como no caso de decoradores e designers de móveis — exemplifica Marcelo Parente, conselheiro da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ).
Uma área que viu o movimento crescer com o excesso de lançamentos foi o marketing. Segundo Marcelo Larrat, sócio-diretor da Larrat Eventos Imobiliários, como o campo é relativamente novo, existem poucos especialistas disponíveis no mercado. O treinamento demora cerca de três meses. As funções básicas desse profissional são desenvolver ações promocionais para atrair o consumidor para o estande de vendas e a atenção do corretor, bombardeando-os com informações de centenas de empreendimentos.
Todo o trabalho, acrescenta, é feito com base no nome e na concepção do produto.
Uma das últimas ações da Larrat foi no “Origami”, um residencial da construtora CHL, na Barra da Tijuca. No dia do lançamento, foram servidos temakis dentro do estande.
Para destacar o espaço entre os motoristas, no meio de uma infinidade de placas publicitárias na Avenida Abelardo Bueno, a empresa pôs modelos vestidas de gueixas na beira da calçada.
Nosso faturamento aumentou 100% em quatro anos. Tivemos que montar uma área específica só para atender ao mercado imobiliário.
Os especialistas estão sendo disputados à tapa, porque a demanda por emprego é maior do que a oferta — ressalta Larrat.
Dentro deste cenário, os paisagistas também são muito bem-vindos, afirma Sergio Santana, autor de projetos como o da Vila do Pan, na Barra da Tijuca. A ausência de cursos de nível superior no país agrava essa carência, acentua ele. Na DW/Santana, empresa do paisagista, a solução foi “importar” estagiários.
Em abril, 17 estudantes americanos vieram ao Brasil.
Existem arquitetos que decidiram seguir esse caminho, mas foram pouco treinados. Tenho praticamente que formar todos que trabalham no meu escritório. Para isso, convidamos estagiários de outros países. Eles ficam conosco um período e, através dessa sinergia, melhoramos a nossa equipe. No futuro, vou mandar alguns dos nossos para fazer estágio ou pós-graduação no exterior diz Santana, formado pela Louisianna State University.
Um paisagista também trabalha na concepção de projetos e com urbanismo. Mas a preocupação da sociedade em geral para com o meio ambiente fez com que essa profissão, a cada dia, se tornasse mais valorizada. A paisagista Darcy Brouck — que está há dez anos na empresa Horto das Palmeiras, em Pedra de Guaratiba — registrou um aumento de demanda de, aproximadamente, 40% nos últimos cinco anos. Ela fez engenharia e depois vários cursos na área.
O trabalho na empresa aumentou bastante nos últimos tempos. É muito bom observar que, a cada ano, nossa função é mais reconhecida no mercado. Atualmente, nós estamos com cinco obras grandes. Anteriormente, tínhamos, no máximo, umas três por mês. As áreas verdes estão sendo exploradas até como recurso de venda destaca Darcy.
Planejando e controlando a execução da obra Outra área que tem crescido nesse mercado é a de gerenciamento de engenharia. A rigor, quem trabalha nesse campo faz o planejamento e controle da execução da obra, fiscalizando o cumprimento de prazos, evitando desperdício e reduzindo custos. A atividade indica ainda o grau de sucesso e viabilidade de uma construção. O diretor da Renta Engenharia, Cesar Melo, teve que aumentar a equipe em 50% nos últimos 18 meses. Hoje, são 45 profissionais, entre engenheiros e arquitetos, sendo nove estagiários:
Nossa atividade cresce no ritmo do mercado. Buscamos pessoal nas faculdades, pois temos que formar a equipe, já que cada empresa do setor tem procedimento específico.
O especialista financeiro-imobiliário também está bem cotado no setor. Esse profissional é responsável por indicar o melhor produto de financiamento, segundo as necessidades do cliente. Na área de corretagem, um investimento da Lopes é um termômetro das oportunidades. A Habitcasa, unidade de negócios da empresa, acaba de iniciar suas operações no Rio e está buscando cem corretores autônomos. Com o mercado em crescimento, o ganho médio pode chegar a R$ 4 mil.
Mercado também precisa de advogados
Mudança na legislação requer especialização maior, apontam escritórios
Advogados especializados em mercado imobiliário também estão em falta no setor. Mauricio Visconti, diretor da Reit Soluções Financeiras Imobiliárias, teve que formar sua equipe internamente, devido à dificuldade de encontrar quem entendesse dessa área jurídica.
- As pessoas estão vendo apenas a ponta do iceberg, que é o engenheiro. Mas todas as construtoras já não encontram advogados para contratar facilmente. A legislação mudou muito e ninguém se especializou, porque a demanda antes do boom do mercado era restrita — recorda.
Uma necessidade é resolver problemas ambientais
Visconti lembra que fenômeno semelhante no Brasil aconteceu durante a privatização das empresas de telecomunicações.
- Mandaram os trabalhadores antigos embora e contrataram gente nova, mas que também não entendia do ramo, até porque não se vendia celular no país e não havia concorrência. Na época, as empresas tiveram que treinar os funcionários com pessoal de fora. A diferença é que, na construção civil, como não houve demissão, a saída é roubar profissionais da concorrência, o que eleva os salários — sustenta.
Além de lidar com contratos de compra e venda, certidões, aquisições de terrenos e ainda defender as construtoras em litígios, os advogados têm sido muito procurados para resolver questões ambientais.
- A legislação, nesse caso, é bem rígida — conta Fabio Campos Mello, sócio do escritório Campos Mello, Pontes, Vinci & Schiller Advogados, que criou uma área específica para atender a esse setor. — Está faltando de tudo no mercado imobiliário. A demanda por profissionais aumenta na mesma proporção das aquisições — acrescenta.
Se depender dos números do setor, as oportunidades continuarão surgindo. A construção civil foi um dos principais fatores que levaram ao aumento do PIB no primeiro trimestre. O setor cresceu 8,8% comparado aos primeiros três meses de 2007.
De acordo com o Sindicato da Construção Civil (Sinduscon-Rio), de janeiro a maio, foram abertos 17.489 novos postos de trabalho no Estado do Rio, um aumento de 216% em relação aos 5.532 postos gerados no mesmo período de 2007. Em todo o país, foram 28.670 postos de trabalho somente em maio. Isso corresponde a 14,12% do total de empregos gerados no Brasil durante o mês (202.984). Com isso, o setor já acumula, em 2008, 160.395 novas vagas, o dobro das 79.102 acumuladas até maio do ano passado. Nesse ritmo, prevê o Sinduscon-Rio, serão criados 300 mil postos até o fim do ano, sendo 30 mil no estado.
Como aproveitar as oportunidades
EM ALTA: A expansão do mercado imobiliário gera uma demanda por profissionais especializados em toda a cadeia produtiva. Além de corretores, advogados, paisagistas e especialistas em marketing, o mercado precisa de pessoal que entenda da concessão de crédito a construtoras, incorporadoras e mutuários. Em São Paulo, só em 2007, foram criadas 45 mil vagas para atender à demanda do setor. Enquanto isso, os salários aumentaram, em média, 33%.
CURSOS: A FGV Management está lançando o MBA em “Gestão de negócios imobiliários e da construção civil”. O programa aborda novos temas em evidência na construção civil, como marketing, direito, meio ambiente, além dos mais específicos, como análise de viabilidade de projetos e gestão de operações e contratos. Já a Universidade Veiga de Almeida oferece graduação tecnológica em “Negócios imobiliários”.
Fonte: O GLOBO Postado em 10/07/2008
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