[05/07/2008] O repique da inflação nos últimos meses - o IGP-M está em 13,44% em 12 meses e o IPCA, que acumula 5,58%, deve romper o teto da meta oficial - provocou no mercado uma corrida das empresas por produtos sofisticados que antecipem a trajetória dos preços.
Informações desse tipo se tornaram vitais para o dia-a-dia dos negócios.
Instituições como a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Nielsen Brasil confirmam a demanda crescente por suas pesquisas. Já bancos e gestores de recursos estão reforçando suas equipes de pesquisa e análise de dados.
Na Nielsen Brasil, segundo Filipe Aboláfio, coordenador de pesquisas especiais, a demanda tem aumentado desde janeiro. São 600 pessoas coletando preços de 150 categorias de produtos pelo país toda semana.
Há um maior interesse das empresas por informações. Elas querem saber como a inflação afeta as vendas de algumas categorias. As empresas têm pedido estudos sobre o preço ideal para seus produtos em um momento como este. Por isso, aumentamos o esforço para atender a essa demanda - explica Aboláfio.
Investimentos em sistema e em equipe
Na Paraty Investimentos, a coleta de preços tem tratamento prioritário. De acordo com o sócio Marco Antônio Franklin, o acompanhamento da inflação é o foco da empresa. Este ano, diz ele, houve mais investimentos na área de análise de dados, com a compra de modelos de sistema e reforço de pessoal para a área. Na gestora de recursos, os preços são acompanhados no varejo e no atacado.
Temos coletoras de preços para pesquisar o varejo. Para saber a variação no atacado, investimos em especialistas para identificar a tendência de preços com diferentes companhias, como produtores e exportadores.
Acompanho os preços há 20 anos. Em 2009, a pressão vai continuar - diz.
Superintendente da área comercial da FGV, Túlio Barbosa diz que todos os clientes que consultavam gratuitamente o "Monitor da Inflação" durante o período de testes passaram a pagar pelo produto. Lançada no fim do ano passado, a publicação se baseia em pesquisa de preços em sete capitais. O resultado é uma projeção diária do IPCA, índice oficial de inflação.
Todo dia, às 8h, o cliente recebe os dados em seu computador - afirma Barbosa, que não divulga números de clientes nem projeções de novos cadastros. - A demanda é crescente.
Na Fecomércio-RJ, o dia-a-dia dos cerca de 40 coletores mudou. João Carlos Gomes, Coordenador do Núcleo Econômico da instituição, ressalta que novas perguntas entraram no questionário. Já os economistas, que analisam os dados, gastam mais tempo com as interpretações: - Estamos em um processo de reestruturação para fazer novas pesquisas e projetos.
A preocupação também existe nas empresas. O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) criou, no fim de 2007, um Grupo de Acompanhamento de Abastecimento e Preços.
O objetivo é mapear a evolução das negociações comerciais ou antecipar reajustes nos preços das matériasprimas - explica o diretor do Departamento de Economia do sindicato, Eduardo Zaidan.
Antes, nosso foco era tentar acertar a segunda casa decimal do índice de inflação. Agora, com a tensão, quero saber se o resultado será 0,6% ou 0,8%, e se tem força para continuar subindo - diz o estrategista de investimentos sênior para a América Latina do Banco WestLB, Roberto Padovani.
Lula lança plano agrícola
Voltado à produção familiar, pacote visa a combater alta de preços
De Brasília - Luiza Damé e Chico de Gois
O presidente Lula lançou ontem o Plano Safra da Agricultura Familiar, com foco no aumento da produção de alimentos no país para combater a alta de preços.
Serão R$ 13 bilhões para os pequenos produtores, sendo R$ 6 bilhões para financiamento de equipamentos agrícolas e da produção de milho, feijão, arroz, mandioca, trigo, café, leite e ovos - o Mais Alimentos. A meta é aumentar em 18 milhões de toneladas a produção da agricultura familiar em três anos.
A linha de crédito para os agricultores oferece até R$ 100 mil por família, com juros de 2% ao ano e pagamento em até dez anos. Os implementos agrícolas serão vendidos aos agricultores com descontos entre 11,5% e 17,5%. O plano também reduziu em 50% os juros dos financiamentos.
Lula disse que a inflação no país está sob controle: - Não há motivo para a gente perder meia hora de sono com isso. O que precisamos é estar alertas para não permitir que a inflação saia, efetivamente, de controle.
Pela manhã, o presidente assinou o primeiro contrato da linha Mais Alimentos na cidade-satélite de Brazlândia (DF), na chácara do agricultor Fernando Kubota. Lula brincou com jornalistas ao pegar uma batata-doce e perguntar se conheciam o tubérculo.
Como a resposta foi positiva, gracejou: - Não é. É um ponto de interrogação.
Depois, disse a Fernando que a cana que estava à disposição era para chupar, não para fazer etanol. Lula passeou e posou para fotos no trator comprado pelo agricultor por R$ 68 mil. Ele terá um ano de carência e pagará em seis anos.
O Ministério da Fazenda anunciou ontem a substituição de Bernard Appy por Nelson Barbosa, atual secretário de Acompanhamento Econômico, na secretaria de Política Econômica. Appy, petista histórico, já vinha cuidando da Reforma Tributária e será secretário especial para reformas estruturais. Na primeira entrevista no cargo, Barbosa disse que o Brasil crescerá menos em 2009. O percentual de 5% deve ser alterado para entre 4,5% e 5% na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) a ser enviada ao Congresso em agosto. Ele afirmou que as projeções da Fazenda indicam que a inflação - acumulada em 12 meses, até maio, em 5,6% - voltará ao centro da meta oficial de 4,5% no fim de 2009 ou no início de 2010.
Fonte: O Globo Postado em 05/07/2008
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